Ao escrever sobre a condição do cadeirante (pessoa que se locomove em cadeiras e carrinhos) no Brasil, no último artigo, eu não imaginava que ia esbarrar num ponto nevrálgico: a autoestima do povo brasileiro. A leitora C. R., por exemplo, escreveu afirmando que a comparação de Valença com Edimburgo é pedante (com trocadilhos, por favor).Mas a comparação, que na verdade não me agrada, é necessária como autocrítica. Pobre do povo que não consegue rir da e/ou reconhecer a própria desgraça. Ter a noção de que as coisas poderiam ser melhores às vezes é só metade do caminho. Se você não tiver nenhuma ideia do que fazer para resolver um problema, eles podem não se resolver sozinhos.
Tornei-me jornalista com a intenção de prestar um serviço público. Considero-me um mero instrumento. Usem-me, usem-me! É o que eu digo. É assim que escrevo a esmagadora maioria de meus artigos. As incontáveis xícaras de café tomadas em Edimburgo com outros brasileiros que lá residem e que se apavoram com o sistema de saúde britânico, tão impessoal e mecanizado, entre outras coisas "bobas", como a xenofobia latente, servem de prova.
Mas é impossível agradar a gregos e troianos. Meus amigos brasileiros que moram no exterior dizem que eu estou cuspindo no prato em que como. Afinal, se eu tive um filho usando gratuitamente o sistema público de saúde, eu devia ser grata. Eu sou. Mas nada me impede de me indignar com o relato de uma conhecida que conta como ela descrevia seus sintomas para a médica, em Edimburgo, e esta - pasmem! - foi procurar na internet, na frente da paciente, o que significavam aqueles sintomas.
Na horrível tarefa de comparar para sugerir soluções para problemas conhecidos, vejo-me obrigada a comentar o que parece ser a regra geral nos povos europeus. Eles não tem autocrítica. Ainda esses dias falava-se no jornal O Globo da Tragédia de Hillsborough, onde dezenas de torcedores morreram esmagados contra as grades que os deviam proteger durante uma partida de futebol em Manchester, em 89. Segundo o blog "Bola de meia", os britânicos tendem a culpar as vítimas. Foi o que a comissão desportiva e a polícia fizeram quando foram atacadas por não fiscalizarem a segurança nos estádios.
E nem é preciso ir tão longe no tempo. Até hoje, a polícia britânica nega os seus erros no caso do brasileiro Jean-Charles de Menezes, morto a tiros numa estação de metrô em Londres. Os culpados pela sua morte não foram punidos e ainda há quem diga que Jean-Charles cavou a própria sepultura ao ir morar na Inglaterra. E a retratação, por parte de todos os envolvidos, inclusive da imprensa, nos dois casos citados, ainda é motivo de polêmica.
Também Portugal já caiu nesse erro quando eu vivia por lá. Certa vez, um casal brigava numa praia e a mulher, apavorada com a violência do parceiro, fugiu. As pessoas à sua volta fizeram o mesmo e sairam correndo. Foi tamanho o tumulto que a imprensa portuguesa imediatamente rotulou o incidente de arrastão. Somente semanas mais tarde a verdade veio à tona, mas neste interím houve protestos no país devido à suposta importação do mau-hábito brasileiro do roubo em massa. Ninguém se preocupou em investigar se alguém havia sequer sido roubado, para o evento ser classificado de arrastão...
Depois disso tudo, eu fico pensando: vale a pena mesmo fechar os olhos para as coisas que não funcionam no Brasil, só para nao se aborrecer? Comemorar todas conquistas realmente nos impede de enxergar que ainda há várias coisas a serem feitas para dar o mínimo de dignidade à população? Sem autocrítica, estaremos condenados ao pior da humanidade: viver em condições precárias e ainda achar que está no paraíso.
Tornei-me jornalista com a intenção de prestar um serviço público. Considero-me um mero instrumento. Usem-me, usem-me! É o que eu digo. É assim que escrevo a esmagadora maioria de meus artigos. As incontáveis xícaras de café tomadas em Edimburgo com outros brasileiros que lá residem e que se apavoram com o sistema de saúde britânico, tão impessoal e mecanizado, entre outras coisas "bobas", como a xenofobia latente, servem de prova.
Mas é impossível agradar a gregos e troianos. Meus amigos brasileiros que moram no exterior dizem que eu estou cuspindo no prato em que como. Afinal, se eu tive um filho usando gratuitamente o sistema público de saúde, eu devia ser grata. Eu sou. Mas nada me impede de me indignar com o relato de uma conhecida que conta como ela descrevia seus sintomas para a médica, em Edimburgo, e esta - pasmem! - foi procurar na internet, na frente da paciente, o que significavam aqueles sintomas.
Na horrível tarefa de comparar para sugerir soluções para problemas conhecidos, vejo-me obrigada a comentar o que parece ser a regra geral nos povos europeus. Eles não tem autocrítica. Ainda esses dias falava-se no jornal O Globo da Tragédia de Hillsborough, onde dezenas de torcedores morreram esmagados contra as grades que os deviam proteger durante uma partida de futebol em Manchester, em 89. Segundo o blog "Bola de meia", os britânicos tendem a culpar as vítimas. Foi o que a comissão desportiva e a polícia fizeram quando foram atacadas por não fiscalizarem a segurança nos estádios.
E nem é preciso ir tão longe no tempo. Até hoje, a polícia britânica nega os seus erros no caso do brasileiro Jean-Charles de Menezes, morto a tiros numa estação de metrô em Londres. Os culpados pela sua morte não foram punidos e ainda há quem diga que Jean-Charles cavou a própria sepultura ao ir morar na Inglaterra. E a retratação, por parte de todos os envolvidos, inclusive da imprensa, nos dois casos citados, ainda é motivo de polêmica.
Também Portugal já caiu nesse erro quando eu vivia por lá. Certa vez, um casal brigava numa praia e a mulher, apavorada com a violência do parceiro, fugiu. As pessoas à sua volta fizeram o mesmo e sairam correndo. Foi tamanho o tumulto que a imprensa portuguesa imediatamente rotulou o incidente de arrastão. Somente semanas mais tarde a verdade veio à tona, mas neste interím houve protestos no país devido à suposta importação do mau-hábito brasileiro do roubo em massa. Ninguém se preocupou em investigar se alguém havia sequer sido roubado, para o evento ser classificado de arrastão...
Depois disso tudo, eu fico pensando: vale a pena mesmo fechar os olhos para as coisas que não funcionam no Brasil, só para nao se aborrecer? Comemorar todas conquistas realmente nos impede de enxergar que ainda há várias coisas a serem feitas para dar o mínimo de dignidade à população? Sem autocrítica, estaremos condenados ao pior da humanidade: viver em condições precárias e ainda achar que está no paraíso.
2 comentários:
Grande Andreia e triste mas este e o “jeitinho” brasileiro... Voce nao pode ser contra nada da terrinha ou apontar nenhuma falha que todos os “brazucas” caem de pau... E dizem que ve e que um desajustado, um ponto fora da curva, um isso um aquilo, um maluco... E um povo sem auto-critica. E claor que existem coisas maravilhosas no Brasil: clima, comida, natureza por exemplo. Mas o grande problema do brasileiro e o excesso de tolerancia: tudo esta mal mas pderia ser pior. E como diz a velha piada sobre a criacao: Deus colocou coisa maravilhoras na nossa terra (clima, natureza e coisa e tal) mas para compensar: olha o “povinho que ele colocou la !!!!”. Continue o bom trabalho.
Agamenon Mendes Pedreira
Obrigada pela mensagem, Aga! Fiquei muito surpresa com a força das críticas quanto ao artigo "Mão na roda". Senti como se estivesse sendo censurada. Teve gente que me mandou virar inglesa de vez, já que eu gosto tanto daqui... O Brasil tem potencial e eu vou continuar lutando por isso. Abraços, Andreia
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