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quinta-feira, 17 de abril de 2008

Competicoes internas

As rivalidades no Reino Unido não são tão evidentes em Londres, onde a mistura de várias nacionalidades dissolve-se no meio da população. Mas em Edimburgo vê-se a olho clínico como os britânicos se encaram. Aliás, britânicos são todos os que nasceram no Reino Unido, filhos de ao menos um pai dessa nacionalidade. Mas quem nasce na Inglaterra é inglês, na Escócia é escocês e no País de Gales é galês.


Exemplo disso é o psicólogo Gavin. Interessado na língua portuguesa e no Brasil, ele passou a frequentar as reuniões da Sociedade Portuguesa e Brasileira da Universidade de Edimburgo e eu acabei tomando-o como aluno. Gavin nasceu e foi criado na capital escocesa, mas um de seus pais é inglês. Num de nossos primeiros encontros, expliquei-lhe que poucos brasileiros entenderiam que ele era escocês. Eu mesma, confesso, pensava que Edimburgo ficava na Alemanha, coisa que aliás, descobri mais tarde, outros brasileiros também pensavam. O fato é que dizer que você é escocês, no Brasil, não significa muita coisa. Mas se você disser que a Escócia faz parte do Reino Unido, vão dizer que você é inglês. O que, para eles, é incorreto. Aí começam as rivalidades (históricas).

Em 1603, o rei escocês assumiu a coroa inglesa, dando início á união dos dois países, consolidada num tratado em 1707. Mesmo vencidos nas guerras de independência, anteriores à união, os ingleses mantiveram um poder superior ao dos escoceses. A união de 1707 resolveu temporariamente os problemas econômicos da Escócia, que havia se endividado nas suas tentativas de expansão, mas manteve esse ranço de país conquistado. Recentemente, a Escócia pôde voltar a ter o seu próprio parlamento, com eleições próprias. O atual primeiro-ministro escocês é Alex Salmond, o quarto político a ter esse título, líder do SNP (Scottish National Party), que luta pela independência da Escócia.

Como no Brasil, alguns misturam política com esporte. O atual primeiro-ministro britânico, o escocês Gordon Brown, por exemplo, ganhou muita simpatia quando afirmou, em 2006, que torceria pela Inglaterra na Copa do Mundo. Para todos os efeitos, Inglaterra e Escócia são Estados independentes. Eles têm até a sua própria seleção de futebol. A escocesa não se classificou para a Copa de 2006. Em compensação, a realidade em terras de William Wallace (herói de Coração Valente, aqui Brave Heart, personagem de Mel Gibson) foi outra. No início, os escoceses torceram por quem quer que estivesse jogando contra a seleção inglesa. Mas depois ganharam uma tremenda simpatia por Portugal, não só porque jogou bonito, na opinião de alguns, mas principalmente porque eliminaram a Inglaterra do campeonato, para o seu deleite.

Já Sean Connery é um capítulo à parte. O ator trabalha ativamente para a independência da Escócia, sendo um dos maiores apoiadores e colaboradores financeiros do SNP. Seu apoio ostensivo à independência recebe, porém, pesadas críticas, pelo fato do ator viver há vários anos em Nassau, nas Bahamas, para fugir das altas taxas de imposto de renda no seu país.

Gavin, meu ex-aluno, esteve morando no Brasil por algum tempo, viajou bastante, morou em várias cidades e passou por situações inusitadas. Prefere as histórias que trouxe de lá a falar da tal rivalidade, apesar de afirmar que é escocês, não inglês - ou pelo menos metade escocês, metade inglês. Perguntado se conseguiu explicar às pessoas a sua nacionalidade, a resposta foi negativa. Muitos não entendiam o que era ser um escocês sem ser inglês, achavam que era tudo a mesma coisa.

Mas no final das contas, a rivalidade existe e o professor George Woolard, que ensina inglês para estrangeiros, conta histórias fascinantes, como a afinação dos ingleses, que reconhecem e classificam as pessoas a partir do seu sotaque. No geral, os escoceses que fazem universidade acabam adquirindo um sotaque "culto", desprovido de regionalismos e mais próximo de sotaques ingleses. Ele afirma ainda que a ideia do sotaque denunciando a classe social vai além dessa rivalidade, dividindo os próprios escoceses. Como conta, a sua família possuía um médico designado pelo serviço de saúde para visitá-los em casa. Sua mãe, que possuía forte sotaque escocês, mudava totalmente o seu jeito de falar na presença desse médico, já que se tratava de uma visita importante.

Entre os brasileiros vivendo na Escócia, há ao menos um consenso: certos sotaques escoceses são extremamente difíceis de entender, como os falantes do gaélico que falam inglês, assim como o sotaque francês, alemão ou italiano permanece impregnado no discurso quando estes falam em outra língua. Parece que somos todos estrangeiros por aqui, e as vezes sente-se que os próprios escoceses também acham isso...

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