Outro dia
li um artigo de uma jornalista brasileira freelance que vive em
Barcelona. Ela escreveu sobre a revelação que seus pais tiveram ao
se aposentar e tirar um ano sabático perto dos filhos na Europa.
Foram viver em um apartamento alugado sem maiores luxos do que uma
limpeza semanal, sem carro, sem empregada fixa, e se surpreenderam
como as pessoas podem viver uma vida cheia de estímulo intelectual
sem, no entanto, gastar os tubos em uma vida de alto padrão.
Descobriram que no velho continente é possível abrir mão de certos
confortos para obter outros.
Embora eu
concorde 100% com a autora sobre o rico consumo cultural que se pode
viver por aqui, eu diria que ela esqueceu de mencionar alguns fatores
fundamentais que permitem as pessoas viverem de forma tão liberal. O
fato de os bens de consumo materiais serem mais baratos ajuda muito.
No Reino Unido, por exemplo, difícil é encontrar quem não tenha
máquina de lavar em casa, até porque não faz diferença alugar
apartamento com ou sem mobília – o preço é mais ou menos o
mesmo.
São
coisas simples da vida como estas, e que poupam tempo e dinheiro, é
que possibilitam gastar em outros departamentos. No Brasil, ainda “se
cata” arroz e feijão antes de fazer, sem falar que ainda tem de
lavar muito bem. Aqui em UK, você paga o mesmo preço por um arroz
ou feijão da marca do supermercado (que já é umas 3 ou 4 vezes
mais barato que as marcas mais baratas) e só bota na panela sem ter
que lavar ou catar. O arroz do tipo Easy Cook (não é parboilizado)
pode ser feito simplesmente colocando em água com algum tempero, sem
nem precisar refogar antes.
Além do
fato, é claro, que os preços praticados aqui são muito mais
baratos, em praticamente todos os setores, do que no Brasil. A
relação custo e ganho real salarial é muito mais benéfica ao
consumidor aqui. Não é apenas o fato de se poupar nos serviços
básicos e dispensar a empregada e os móveis de luxo que permite às
pessoas viverem uma vida mais frugal, menos materialista e mais
sustentável. O que falta no Brasil, além de melhores serviços e
produtos, são melhores salários e preços mais justos.
De certa
forma, a classe média daqui é igual a de qualquer outro lugar:
quando se cansa de um produto, leva ele nas lojas de caridade para
ser vendido a preço de banana ou pior: deixa no quintal do prédio,
junto ao lixo, para quem quiser pegar, o tipo de história que a
gente ouvia sobre os EUA antigamente.
É só a
gente contar quantas pessoas a gente conhece que tem micro-ondas,
chaleira elétrica, aquecimento em todos os cômodos, máquina de
lavar (que muitas vezes também secam a roupa), e que não precisaram
sequer comprar sofá, mesa, armário, louça de cozinha ou camas. Em
UK, até mesmo quem é considerado pobre tem isso. Pobre, aqui, tem
até carro, TV flat screen e computador. E não precisa catar arroz ou feijão. Nem batata frita dá trabalho aqui: dá pra comprar um saco delas pra fritar ou assar no forno, já cortadinhas no formato. Não é à toa que a vida é
considerada mais fácil na Europa...

2 comentários:
Adorei o artigo. Vale tambem comentar que por ser mais seguro na Europa, as pessoas podem tambem fazer mais programas ao ar livre, sem tem medo de serem assaltadas etc.
Com certeza, e por isso não precisam de certos confortos que se têm de buscar no Brasil, como carros blindados, condomínios fechados onde só entra quem mora e seus convidados. Apesar de haver diferenças sociais marcantes na Europa, não há abismos sociais, como em terras tupiniquins...
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