O alvorecer da era digital foi marcado pelo surgimento das primeiras máquinas eletrônicas de calcular na década de 40 do século passado, fruto de uma antiga ambição humana: a de calcular rapidamente grandes somas de qualquer coisa (grãos de milho, impostos franceses, trajetórias balísticas). O Electronic Numerical Integrator And Computer (ENIAC) foi o primeiro computador movido a válvulas, e precursor de todos os computadores atuais.
A invenção era fantástica, e depois de amplamente difundida para uso científico, e mais tarde didático, as suas possibilidades começaram a expandir-se rapidamente pelo mundo todo, desde a comunicação de computadores entre si e a conseqüente transferência de arquivos, passando pela digitalização de tudo que já tinha sido humanamente feito (músicas, livros, filmes) até a comunicação real entre pessoas situadas em continentes diferentes.
Mas no final das contas, a grande revolução tecnológica provocada pela era digital também afetou drasticamente a nossa sociedade consumista, cada vez mais jovem e passível de assimilar as novas tendências. O advento do vídeo-game, da comunicação sem fio e do toca-fitas na década de 80 fizeram parte de uma era de pura inocência. Enquanto os trintões de agora se consideram sortudos por terem sido apresentados ao fliperama e ao Atari, hoje em dia dezenas de jovens do mundo inteiro podem competir entre si num mesmo jogo online em torneios internacionais, com direito à empresários e viagens ao exterior, graças à tecnologia de redes de computadores e à Internet.
O telefone celular virou símbolo de desejo desde o primeiro momento, satirizado e imortalizado diversas vezes no cinema. Na clássica cena holywoodiana, todos os figurões que almoçam no restaurante chique ouvem o toque de um celular chamando e todos atendem ao mesmo tempo, mas somente um (geralmente uma das personagens principais) diz triunfante: «É para mim!» Considerado por muitos um dos responsáveis pelo surgimento dos workaholics, o celular também evoluiu. A tecnologia permitiu que usuários da Internet se comunicassem com pessoas nos mais distantes lugares através de correio eletrônico e salas de bate-papo, onde foi criada uma nova linguagem (curta, rápida e na maioria das vezes gramaticalmente incorreta, mas efetiva) que foi em seguida usada nas milhares de mensagens SMS (torpedos) enviadas diariamente entre amigos.
Segundo especialistas da língua, a popularização destes recursos deram um grande impulso na formação de uma nova literacia na escrita entre os adolescentes nos últimos anos. Sem falar no popular hobbie da foto ou filmagem celular, gerador de concursos de fotografias digitais obtidas através de câmeras de celulares e de processos e protestos de fama internacional pela divulgação indevida de imagens de modelos brasileiras em cenas tórridas em praias da Espanha ou ditadores executados no Iraque. E viva a propagação de sites que divulgam vídeos caseiros!
Mas mesmo assim a tecnologia consegue superar a si própria, ou então é a própria sociedade que, vendo-se encurralada pelas máquinas, como no filme Matrix, decide de vez em quando que está na hora de retornar velhos valores e desfrutar da nova condição com alguma dignidade. É neste momento então que, após anos de submissão ao ritmo louco do trabalho das 9 às 6, quando muitos tentavam fazer o tempo passar mais depressa ouvindo música no toca-fitas a caminho do trabalho, alguns decidem que é hora de esquecer o tempo. Levar tudo a um ritmo mais calmo. Ouvir música sim, mas só para relaxar, sozinho... Mas, para que ficar sozinho, quando você pode estar cercado dos amigos, e ainda assim apreciar a sua privacidade? De uns tempos para cá, por exemplo, alguns jovens universitários britânicos decidiram que era uma boa idéia levar o seu I-Pod colorido, provavelmente a única marca ou modelo de tocador de MP3 permitido em tais rituais, para uma pista de danças, com a memória de vários megabites cheia com as suas músicas preferidas.
As Silent Disco, como são conhecidas, que são uma espécie de sinal dos tempos, já também podiam ser representadas por outro «clássico» do início desta década entre estudantes universitários no Brasil: um apartamento divido por vários estudantes, cada qual com o seu computador no seu quarto, batendo papo pelo Messenger com os familiares que estão longe até que alguém se lembra de encomendar uma pizza... falando com os colegas de apartamento pelo próprio Messenger e fazendo a encomenda pela Internet!
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