*O resultado dessa experiência é uma análise profunda da sociedade elitizada e cega que persiste nos dias de hoje, transcrita no livro «Morte às Vassouras» (Ed. Edicon), prefaciado pelo rapper Ferréz e lançado em Portugal há seis meses, na Casa do Brasil de Lisboa.
A primeira obra dessa jornalista paulistana retrata as dificuldades enfrentadas pelos imigrantes que «naufragam» em Portugal num estilo poético, consciente e duro. Descobriu que não fazia parte da elite quando precisou trabalhar como empregada doméstica e sujeitou-se ao revezes que viriam com coragem e determinação. Passou pela ilegalidade, pelo cárcere privado, pela solidão e pelo mundo nem sempre compreendido da prostituição e guardou cada experiência no seu diário, a bagagem que levou de volta ao Brasil.
Leia abaixo a entrevista com a jornalista e escritora Claudia Canto.
Quais foram as principais razões que a motivaram a vir para Portugal?
Inicialmente cultura, mas também porque chegou uma hora em que o jornalismo no Brasil não estava me correspondendo e eu pensei, eu quero algo além. Eu queria aprendizado, queria escrever alguma coisa, queria experiência para o meu currículo, principalmente. Depois de passar uma temporada em Portugal e na Europa eu ia chegar no Brasil com essa bagagem no currículo para ter mais chances de ser contratada.
Quais eram as suas principais expectativas na terra de Camões?
Em princípio assomar experiências culturais e, conseqüentemente, ganhar alguns euros (risos).
Quais foram as principais dificuldades que você enfrentou quando chegou aqui?
Eu fui muito bem recebida aqui em Portugal, o que não substitui o acolhimento que você tem com a sua família. Acho que a saudade, como muitas músicas brasileiras já expuseram muito bem, é uma coisa física. É uma coisa que dói mesmo. A minha maior dificuldade foi estar aqui e minha família estar lá. Quanto ao impacto social, eu sempre soube lidar muito bem com a discriminação racial que já sofri. Aqui, eu sofri com a discriminação por ser brasileira, que é considerada prostituta, mas eu soube lidar com isso também. Os meus argumentos [contra isso] eram demais impactantes para permitir que uma conversa dessas fosse mais profunda. Se insinuavam que eu, por ser brasileira, era igualmente prostituta, eu dizia que eu poderia citar trechos da obra de Fernando Pessoa ali, naquele momento. «E você», eu perguntava, «consegue fazer isso?» A prostituta fala de Camões, e você? A brasileira, a mameluca... não é mameluca, é negra! Eu não sou morena, mameluca ou mulata, eu sou negra. Quando falam que eu sou bonitinha, é porque sou morena. Na hora de uma briga, falam «Sai daqui, negra!» Apesar de eu não levantar a bandeira pelo movimento negro eu me assumo como negra, porque ou a pessoa é ou não é. Tanto que no prefácio do livro, fala-se que «a morena contempla-se, a negra faz-se escrava ou abate-se». Eu sofri tudo o que a maioria sofre.
Das suas experiências como trabalhadora braçal, conte-nos qual foi a lição tirada disso tudo.
Eu fiquei muito mais organizada, eu dei muito mais valor à minha mãe, que lavava, passava, cozinhava e para mim aquilo era corriqueiro. Quando eu voltei ao Brasil ela até estranhou, porque eu me preocupava com o bem-estar dos outros. Isto me fez crescer muito como pessoa, tanto no lado prático como no lado moral. Amanhã, se eu precisar ter uma empregada doméstica, ela não vai ser interna, porque a pessoa precisa ter a casa dela, não dá para ter uma pessoa na sua casa, vivendo a sua vida. Não tem forma melhor de você avaliar como isso pode ser difícil se você não passou pela experiência, então eu agora valorizo muito mais o trabalho delas e muitos outros.
Você acha que a língua portuguesa, como é falada no Brasil, pode ser considerada uma espécie de barreira em Portugal?
Eu acho que o português brasileiro é mais ritmado. Segundo um colega português disse, a gente colocou a língua portuguesa «para sambar». O Timor Leste é o melhor exemplo, apesar de ainda estar tratando se fala os dialetos ou o português. Pelo contrário, o Brasil «adotou» o português, apropriou-se dele, associou à nossa realidade, falam um português que é muito cativante, comunicativo e expressivo. O que me incomodou foi ver os brasileiros que aqui vivem a dois ou três anos adaptar-se ao português de Portugal (principalmente no sotaque) não porque acham que isso vai facilitar, mas só para não se sentirem um peixe fora d'água. Eu gosto tanto da língua que eu jamais deixaria de falar um português mais brazuca. É uma barreira, sem dúvida, tanto para os brasileiros quanto para qualquer outro povo que fale a língua portuguesa. No entanto, a «nossa língua portuguesa» é uma ferramenta de diversificação do idioma bastante válida, ou melhor, é desta forma que deveria ser encarado, e não com preconceitos infundados, que tem como pano de fundo a intolerância diante de outros povos e outras culturas. A nossa «língua portuguesa» é a mostra de que o Brasil, pelo menos neste sentido, caminhou com as próprias pernas...
Você esteve em contato constante com jornalistas brasileiros e/ou portugueses enquanto viveu em Portugal?
Estive em contato mais com jornalistas portugueses, quando pratiquei o jornalismo como freelancer em Portugal, mas não tive sucesso nessa área porque estava ilegal. E a minha primeira experiência prostitucional, que eu trato no livro, foi justamente com um jornalista português, pois o assédio (às estrangeiras) é muito grande.
Quando e como surgiu a idéia de publicar esta obra?
Desde o início, quando eu estava na casa onde fui empregada doméstica. A televisão não fazia sentido, a comunicação não existia, então a literatura e a poesia foram a minha saída. Me senti obrigada a escrever alguma coisa, porque se eu estou no inferno e o capeta me olhou, isso pra mim dá um livro (risos). Pode-se dizer que o livro começou desde o primeiro dia, eu já estava até me vendo passar por determinadas situações sobre as quais eu pudesse escrever. Como um pressentimento.
Você acredita que Portugal é um país que recepciona bem os imigrantes? Sentiu-se alguma vez discriminada por ser imigrante ou uma certa flexibilidade por ser uma imigrante brasileira?
Por diversas vezes encontrei olhares curiosos, que transmitiam um certo preconceito velado, comentários ácidos, e atitudes questionáveis! No entanto, a questão é bastante complexa, existem vários aspectos que devem ser considerados. A postura diante da vida e das pessoas, ou seja, a cultura e a informação são fatores que contribuem, e pesam muito na balança, agindo como um freio nestas questões menores. Conquanto fui bem acolhida, acredite que eu tive a sorte de encontrar pessoas de coração nobre. No entanto, a imagem do brasileiro no exterior, apesar de ser um assunto muito batido, ainda não se modificou, ainda somos encarados com alguns preconceitos que já não deveriam existir no século XXI. Não só com os imigrantes brasileiros em Portugal, mas também com as outras comunidades que aqui se estabeleceram.
E na sua opinião, haveria alguma forma de lidar com isso?
Cultura, cultura, e não estou dizendo em relação ao mundo acadêmico que muitas vezes só contribuem para alienar ainda mais. Na verdade, acredito que as principais formas de crescer como ser humano (e escapar desse tipo de situação com dignidade) são lendo, conhecendo pessoas inteligentes e viajando.
*Entrevista publicada inicialmente no jornal online Fazendo Media, de Niterói, Brasil.
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