*Sou um otimista cético. Para mim, felicidade é ter um trabalho ou emprego estável e que me satisfaça. Estou vivendo em Edimburgo desde que cheguei em Uk há três anos (setembro de 2003). Vivendo longe do Brasil, acabei descobrindo que a pessoa pode e deve fazer de tudo na vida: trabalhar e se divertir sem pressa ou correria. Que as pessoas podem ser educadas, cumpridoras de seus deveres, sem serem rotuladas de ingênuas e/ou fora da realidade.
Ao deixar o Brasil, eu tinha anseios de não precisar voltar nunca mais para lá, se pudesse, apesar de sentir falta da minha família. Desde que vim para cá, só fui visitá-la uma vez no Rio de Janeiro, onde eles ainda vivem. Eu morava sozinho em um apartamento duplex de cobertura (do meu pai) na Tijuca, perto da Floresta da Tijuca e das favelas do Borel e Formiga. Todo dia eu via os tiroteios nas favelas.
Trabalhava seis dias por semana no LNCC (Laboratório Nacional de Computação Científica) e ainda tinha que arranjar tempo para estudar. Era uma vida muito agitada e corrida. Primeiro a faculdade (UERJ), depois o mestrado em Engenharia Mecânica (UFF). Foi lá que conheci várias pessoas que me influenciaram na escolha de vir para a Escócia, pois muitos professores meus estudaram em universidades de Edimburgo. Além disso, se encaixava no perfil que havia escolhido: uma cidade européia onde eu pudesse ter uma vida balanceada com cultura e tecnologia. Basicamente vim para Edimburgo porque sempre busquei me aperfeiçoar como profissional de pesquisa.
A primeira impressão que tive da Escócia foi de que era um lugar organizado, onde as coisas, por mínimas que fossem, sempre são feitas com seriedade, e a minha opinião não se modificou. Percebi que a educação aqui não é apenas um grau de escolaridade, mas também um modo como as pessoas se relacionam com você. Achei o clima muito bom, a organização das cidades e a infra-estrutura de serviços em geral é bem planejada, e o custo de vida é balanceado em relação à comida, moradia, entre outros. Edimburgo é o meu lugar preferido, apesar de ainda não conhecer muito além de Stirling e Londres.
Normalmente, a minha semana é marcada pelo meus estudos, pelas aulas de caratê e pela diversão noturna. Nos dias úteis, em horário comercial, fico no meu escritório no campus da Universidade de Edimburgo (King’s Building) trabalhando na pesquisa do meu doutorado, que está voltada para a otimização de compiladores. E ainda tento estudar aos sábados e domingos em outro campus da universidade, para complementar a minha pesquisa. Como moro sozinho em um flat pequeno e bem simples no centro antigo da cidade (Old Town), perto dos principais prédios da universidade, não perco muito tempo me locomovendo. Consigo para ir para onde preciso a pé, apesar de às vezes eu apanhar o ônibus gratuito que a própria universidade oferece aos estudantes.
Nas noites de quarta e sexta-feira, pratico caratê no clube da universidade, atividade que exerço a uns dois anos e meio. No início meu objetivo era adquirir forma física e ajudar no inglês. Hoje eu posso dizer que é um vício. Não consigo faltar a quase nenhuma aula, mesmo estando machucado (fui às aulas nestas férias mesmo com uma costela quebrada). Perdi quase 20 quilos devido ao ritmo do caratê e muito dos meus melhores amigos britânicos são dessas aulas.
Nas noites de sexta e sábado eu vou a algum pub, principalmente se tiver pista de dança. Posso dizer que a minha vida social aqui é agitada: além dos amigos britânicos do caratê, às vezes saio com o pessoal da Sociedade Portuguesa e Brasileira da universidade ou com o pessoal do grupo de pesquisa do doutorado.
O escocês é mais alegre e descontraído do que o inglês, na minha opinião. Ao menos nos lugares que conheci, fiquei com a impressão que o Reino Unido recebe bem os estrangeiros. Porém, analisando pelos ingleses e escoceses que conheci aqui, o britânico pode ser evasivo: às vezes gosta de uma pessoa mas não admite e não quer dar o primeiro passo para começar um relacionamento (e pode perder a oportunidade por causa desta indecisão). Fica esperando uma «oportunidade milagrosa» para resolver este impasse. Se fosse comparar, acho os brasileiros mais afetivos. No Brasil, as pessoas são explícitas quanto ao seus sentimentos, deixando bem claro o que querem.
Por falta de grana e muito trabalho, ainda não pude curtir o Edinburgh Festival (evento cultural realizado todo ano no mês de agosto) como se deve. Em 2006 eu quis ir no festival e participar do concurso de fotografias do jornal escocês Scotsman, que oferecia um prêmio de £1000. Eu tenho paixão por fotografia desde os meus 18 anos. Já tirei milhares de fotos em Edimburgo. Estou na minha quarta câmera digital.
Londres é bem legal também, fui à Coventry (tem um monte de fábricas de carro - Jaguar, por exemplo) e as ruínas da catedral que foi destruída na Segunda Guerra Mundial pelos nazistas (a cidade era um alvo preferencial por causa das fábricas e por ser um centro de produção de munições).
Interesso-me pela aviação militar, marinha e armas leves. Desde que eu me entendo por gente eu leio sobre o assunto. Isso inclusive influenciou minha escolha de carreira (engenheiro mecânico). Gosto muito da história da Segunda Guerra Mundial. Penso em voltar a Londres e a outras localidades do Reino Unido relacionadas com a guerra (museu aeroespacial, museus militares, etc.). Quando estive nos castelos de Edimburgo e Stirling visitei os museus dos regimentos (Royal Scots Dragoon Guards – cujas origens datam de 1685 no reinado de James II e The Argyll and Sutherland Highlanders - fundados pelo rei George III, em 1793 e enviados a África do Sul para a guerra dos Boeres. Ambos ainda servem na guerra do Iraque) e é notável observar o orgulho que o escocês tem de seus regimentos, que sempre cumpriram com seu dever nas diversas vezes em que foram usados. Quero visitar outros castelos e fortes que possuem sede de regimentos (Black Watchers em Aberdeen, por exemplo) e também uma das mais famosas feiras aeroespaciais em Farnborough, que acontece a cada 2 anos (a próxima será em julho 2008), quando os últimos e melhores aviões do mundo todo são apresentados junto com relíquias.
A comida aqui é bem diferente da que costumava comer no Brasil. Aqui não existe uma culinária própria. O mais famoso prato daqui, e o que mais aprecio, é o haggis (visceras de ovelha, farinha de aveia, cebola, e outros temperos cozinhados no estômago da ovelha). Também existe muita assimilação da culinária dos povos que imigraram (indianos, paquistaneses e outros). Não gosto da comida indiana/paquistanesa pois é muito apimentada e a base de curry. Por isso quase sempre adapto receitas brasileiras usando ingredientes locais que são fáceis de encontrar.
Daqui a dez anos eu gostaria de estar trabalhando com pesquisas relacionadas com o meu doutorado em alguma grande e conceituada universidade européia ou americana. Não me interessa voltar ao Brasil, por não querer me esconder da violência e por não ter futuro profissional. Mas também quero poder estar junto da minha família, a qual pretendo «resgatar» brevemente, ter uma casa minha e aproveitar a vida: viajar nas férias, curtir meus hobbies...
*Entrevista publicada inicialmente na Revista BrasilNet, de Londres.
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