Dos vários suspeitos detidos até agora pela polícia britânica, mais de 200 pessoas poderiam ter tido o mesmo destino do brasileiro Jean-Charles de Menezes, segundo as estimativas. Mas a política do «atirar para matar» nas operações policiais desde os atentados de 7 de julho só foi efetuada neste caso.Muitos questionam agora sobre qual teria sido a verdadeira motivação para o brutal assassinato deste cidadão brasileiro. Há quem diga que a quantidade de tiros disparada diretamente na cabeça serviriam para dificultar a posterior identificação do corpo. Se fosse esse o motivo, então a polícia britânica aparentemente já teria desconfiado que cometera um erro, dentro de uma espantosa série de outros que se seguiram.
As novas e incontestáveis evidências, divulgadas pela estação de televisão britânica ITV News ontem, apontam para uma versão que torna os fatos ainda mais trágicos. O jovem eletricista morto não teria corrido dos policiais senão quando viu que o seu transporte já havia chegado à estação.
Também é desmentido que a vítima vestia roupas largas que pudessem esconder dispositivos explosivos, e que tampouco tenha entrado ilegalmente na estação. Ele teria usado o seu bilhete eletrônico para passar pelas catracas.
Segundo ainda a reportagem da ITV, Jean-Charles já estava sentado no trem quando foi abordado pelas autoridades, e foi alvejado mesmo depois de já ter sido «dominado». Todos esse fatos foram revelados com base em imagens do circuito interno de televisão, testemunhas e documentos aos quais a emissora teve acesso.
A polícia britânica vive agora sobre intensa pressão dos órgãos de comunicação para que as investigações desvendem toda a história o mais breve possível e se faça justiça. Por sua vez, a mídia inglesa está sendo alvo das mais fortes críticas, sobretudo pelos portugueses, que ainda tentam se redimir do famoso incidente ocorrido no dia 10 de Junho, conhecido como o «arrastão de Carcavelos».
Três estações de televisão portuguesas – a estatal RTP e as privadas SIC e TVI – noticiaram que a praia de Carcavelos, em Cascais, teria sido palco de um monumental arrastão, perpetrado por mais de 500 jovens que teriam tentado roubar e agredir os banhistas. Era a comemoração do dia de Portugal, dia 10 de junho.
A polícia e os jornalistas ocuparam a praia em peso. A televisão começou a emitir flashes ao vivo, anunciando o início de uma nova era na criminalidade do país, a era do arrastão. A população ficou estarrecida e a imagem do país pelo mundo, que depende muito do turismo, abalada.
Mas a televisão só conseguiu mostrar depoimentos de testemunhas que nada viram, sem encontrar agressores, vítimas, objetos roubados ou pelo menos queixosos. Foi inevitável comparar o «acontecimento» com o Brasil e colocar as culpas nos imigrantes e negros (mesmo aqueles que possuem, inclusive, a nacionalidade portuguesa, por terem nascido em alguma antiga colônia).
No dia 30 de junho, toda a versão havia sido desmentida por documentário da jornalista Diana Andriga, chamado Era uma vez um arrastão, que revelou toda a farsa através de uma colagem das imagens produzidas pela TV. Não havia provas de eram negros os autores dos supostos crimes, nem queixas de roubo.
Pouco tempo após o incidente, uma manifestação pública em Lisboa, que se dizia organizada para protestar contra a violência, foi marcada pelo caráter xenófobo que assumiu, ditando palavras de ordem contra a vinda de imigrantes ao país.
Tanto o documentário da jornalista Diana Andriga como a reportagem da ITV News comprovam que houve um excesso de informações desencontradas e alardes sensacionalistas que produziram notícias repercutidas em todo o mundo, e com uma triste nota racista, segundo a opinião pública. Afinal, os supostos ladrões de Carcavelos seriam de cor, e Jean-Charles não tinha uma aparência exatamente britânica.
O suposto arrastão trouxe, posteriormente, alguma dose de bom senso aos comentários jornalísticos portugueses, que discutiram larga e abertamente o seu mea culpa. Por sua vez, criticam a mídia inglesa por nem tentarem se desculpar ou debater o fato de que também abusaram do seu poder ao divulgar uma história baseada em falsas evidências - e com piores conseqüencias.
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