A Europa não mostrava um lado tão racista desde a Segunda Guerra Mundial, mas a verdade é que a eleição de Barack Obama, o primeiro presidente negro na história dos EUA, mexeu com os brios de muita gente.Embora acredita-se que a Europa é mais tolerante que os Estados Unidos, o continente guarda secretamente um rancor contra "outras raças" que remonta há mais de meio milênio. Na época das grandes navegações, os povos europeus criaram toda a sorte de teorias que justificassem a dominação das civilizações africanas e e as do continente americano. Entre elas, a de que a raça branca foi escolhida por Deus para liderar o mundo, e que índios e negros eram animais, portanto deveriam ser domesticados.
Os brancos chegaram então à África e muitas trocas comerciais foram estabelecidas com povos negros. Mas, quando os europeus chegaram às Américas, tentaram escravizar os índios e falharam, a solução foi escravizar os negros africanos. Inicialmente, foram usados como escravos tribos já escravizadas por outras civilizações africanas. A escassez de "recursos humanos" pode ter provocado depois a escravização de qualquer tribo africana nesse projeto dito "civilizatório".
A igreja também teve a sua parte no fortalecimento dessa crença ao defender a catequização dos povos ameríndios - reformas religiosas faziam Roma perder mais e mais adeptos a cada dia. Mas os negros continuavam, estranhamente, a ser vistos como mais próximos dos primatas do que dos homens, aos olhos da igreja. E assim permanece, em alguns casos, até os dias de hoje.
Uma reportagem de 2008 do jornal "Washington Post" revelou que várias figuras de destaque na Europa continental, entre políticos e jornalistas, fizeram declarações suspeitamente racistas a respeito da vitória de Obama. Referências a um homem bronzeado e à conquista africana da Casa Branca disfarçaram o preconceito latente contra a idéia de um negro presidir o gabinete da maior potência mundial. Os britânicos, por outro lado, com seu senso de humor negro e em claro estado de negação, afirmam que não há motivos para a Europa e os próprios EUA se alarmarem com a eleição de Barack Obama - ele nem é tão negro assim.
Das muitas piadas já feitas a respeito do acontecimento histórico, destaque também para a votação de novembro de 2008: Obama obteve mais votos no geral, ao contrário das eleições anteriores, quando o candidato republicano George Bush foi eleito somente pela maioria nos colégios eleitorais. Para o jornalista britânico Toby Young, quem repetiu o feito de Bush naquele ano foi o piloto de fórmula 1 Lewis Hamilton, que levou o campeonato mesmo sem ganhar...
Brincadeiras à parte, 2008 vai permanecer na história mundial pelas muitas conquistas contra o preconceito racial. Além das marcantes vitórias na política e no esporte - Hamilton foi o primeiro piloto negro a conquistar o título da mais alta categoria do automobilismo - a cultura negra também vem sendo cada mais valorizada. Na terra dos festivais culturais, Edimburgo, acontecia na mesma época mais uma edição do "Africa in Motion", que contou com dezenas de filmes no melhor estilo "Nollywood" (como é chamado o cinema nigeriano) e outros eventos. A capital escocesa é a sede anual de alguns dos maiores festivais artísticos do mundo, como o Fringe e o Festival Internacional de Artes e Cinema.
O Rio, considerado a capital cultural brasileira, não deixou por menos e sediou, entre 13 e 24 de novembro, o II Encontro de Cinema Negro Brasil em diversos locais, como o Espaço Tom Jobim e o Odeon Petrobrás, além de uma tenda na Lapa. Zózimo Bulbul, o primeiro protagonista negro de uma novela brasileira, foi o idealizador do projeto. O ator, de mais de 70 anos, criou em 2007 o Centro Afrocarioca de Cinema, influenciado pela sua própria carreira no Cinema Novo e inspirado por festivais de cinema negro. A mostra trouxe 57 filmes que mostravam a influência e a força da cultura negra a nível mundial.
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