É um grande erro pensar que, mesmo com a Globalização, as únicas coisas que nos separam de outras culturas são a comida e os trajes. Entre uma cultura e outra há abismos inteiros, algumas vezes irreconciliáveis, que formam parte da identidade de cada nação. E se engana também quem pensa que o brasileiro não tem uma.O povo brasileiro é afável ao extremo. No Brasil, as crianças, quando vão à escola, dão um beijinho no rosto da professora na hora da entrada ou na saída, e a professora primária é chamada de “tia”. O tema já foi até cantado na música “O descobrimento do Brasil”, do saudoso Legião Urbana: “... a professora Adélia, a tia Edilamar, e a tia Esperança”. No Reino Unido, porém, se uma professora fizer o mesmo, ela provavelmente será processada por assédio sexual ou pedofilia. É expressamente proibido.
Muitos afirmam que o modo como alguns povos europeus se comportam em relação ao contato humano reflete no conceito das liberdades individuais. Por aqui, existe uma coisa chamado “espaço pessoal”, que tem até medidas exatas: são 40cm na frente e atrás e 20cm dos lados. Uma violação deste espaço pode custar uma bela grana ao agressor. É por isso que no Reino Unido, como em vários outros lugares, existe o “date”, uma saída a dois. As pessoas se conhecem no local de trabalho, na escola, num bar ou num clube, e trocam nomes e telefones. Dias depois, elas marcam um encontro. Se tudo der certo, sai um beijo no final. Tudo por causa do espaço pessoal.
Como no Brasil não existe tal conceito, as relações se desenvolvem numa maneira que eles considerariam muito mais agressiva e bárbara. Duas pessoas que se conhecem no local de trabalho pode perfeitamente sair dali, em plena segunda-feira, após o expediente, e tomar uma cerveja juntos. O primeiro beijo geralmente sai em menos de meia hora. Em compensação, embora este seja um método bem mais simples e descomplicado de interagir, sempre há o risco de passar dos limites aceitáveis. É muito comum, por exemplo, homens darem em cima de mulheres comprometidas num clube ou bar, principalmente se elas estão sem a companhia do parceiro na hora. Uma frase típica que se ouve é que, se elas fossem mesmo comprometidas, não estariam num bar.
O exemplo cai com uma luva sobre o conceito de liberdade individual. Uma mulher não tem o direito de sair à noite com suas amigas e sem o companheiro. Se sair, é porque está querendo companhia masculina. Portanto, não há o respeito pelo espaço pessoal de cada um. Qual menina do interior, por exemplo, não se lembra de ter tido uma parente meio gagá que ficou encantada quando os seios dela apareceram e simplesmente pegou neles para fazer “cuti, cuti”?
É bastante difícil traçar a linha do aceitável, porém. Quando o contato humano deveria ser mais estimulado? No Reino Unido, onde as pessoas dificilmente se tocam, há uma política de retorno ao básico. Quando uma mãe dá a luz, o seu bebê é imediatamente colocado no seu peito nu. E não sai de perto da mãe enquanto ela não deixar o hospital – a criança fica num berço do lado da cama, e não mais num berçário. Em alguns casos, o contato é até bem vindo. Em outros, os extremos deveriam ser evitados, ou corre-se o risco de se perder o restinho de humanidade que temos.
Nenhum comentário:
Postar um comentário