Comparar
a aprovação do sistema de cotas no Brasil com o apartheid na África
do Sul e a segregação racial que vigorava nos EUA até os anos 60 é
puro ranço de elitista. É um pensamento inconsciente de que não se
pode dar uma chance aos negros, que ainda são considerados uma
subclasse.
O
apartheid não apenas tirava todos os direitos humanos dos negros mas
também permitia que se cometessem atrocidades contra eles. A
segregação dos negros americanos proibia que eles se casassem com
brancos, que votassem, que estudassem. Como pode ser a mesma coisa,
se a lei das cotas vai colocar mais estudantes negros na faculdade?
O
Brasil possui um racismo velado que cisma em permanecer vivo, mesmo
com todo o desenvolvimento econômico, social e político que o país
vêm tendo nas últimas décadas. Quando eu morava no Rio, eu ia para
Valença pelo menos duas vezes por mês para estar com a família. Na
volta, o ônibus era frequentemente parado em blitz no meio da
estrada, antes mesmo de chegar em Barra do Piraí. Nessas inspeções,
os policiais – mesmo que fossem negros – sempre mandavam todos os
passageiros negros saírem para ser revistados. Nunca vi um branco
passar por isso.
Mas
ainda existe gente que têm a petulância de dizer que não há
racismo. Não só há preconceito quanto a quem não é branco, mas
também contra as mulheres, que ainda não têm as mesmas chances que
os homens, contra os estrangeiros (de países mais necessitados, é
claro) e até mesmo contra quem não é do mesmo estado ou da mesma
cidade.
Tudo
isso só piora a discrepância que existe no sistema educacional
brasileiro. A educação é universal e toda criança tem direito a
uma vaga em uma escola pública. No entanto, o ensino peca por
qualidade. Até o segundo grau, nenhuma família de posse usa o
ensino público. Mas nas escolas particulares, os alunos são
devidamente preparados para o vestibular dificílimo das
universidades públicas, que são gratuitas. O resultado: crianças
pobres recebem educação fraca e quando terminam o ensino básico
ainda têm que pagar para estudar em faculdades que, muitos vezes,
também estão bem aquém das expectativas em termos de qualidade.
Eu
fiz curso pré-vestibular e me inscrevi para fazer as provas de
quatro universidades federais. Não passei em nenhuma. Nem mesmo no
cursinho pré-vestibular que fiz eu consegui aprender o que eles
pedem nas provas. Zerei várias matérias, como química, física e
matemática. Mas passei no vestibular da Universidade Estácio de Sá.
Eles não tinham sequer as matérias História e Geografia, tinha
algo muito parecido com Estudos Sociais. Uma das perguntas que me
fizeram foi: “Qual é nome do filme estrelado por Fernanda
Montenegro e passado em uma estação de trem do Rio de Janeiro?”
Ser
a favor das cotas não quer dizer ser a favor do “nivelamento por
baixo”, mas talvez de algum tipo de nivelamento que corrija essa
anomalia. O próprio vestibular já devia estar caminhando para o seu
fim, assim como o voto obrigatório, pois só aumentam
a
desigualdade. O aluno devia conseguir vaga na faculdade através de
todo o seu esforço feito durante o segundo grau, como se as suas
boas notas na escola fossem parte de um currículo, e não fazendo
uma nova prova que sequer é unificada pelo país afora e é injusta.

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