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quinta-feira, 17 de maio de 2012

Conta com a cota


Comparar a aprovação do sistema de cotas no Brasil com o apartheid na África do Sul e a segregação racial que vigorava nos EUA até os anos 60 é puro ranço de elitista. É um pensamento inconsciente de que não se pode dar uma chance aos negros, que ainda são considerados uma subclasse.


O apartheid não apenas tirava todos os direitos humanos dos negros mas também permitia que se cometessem atrocidades contra eles. A segregação dos negros americanos proibia que eles se casassem com brancos, que votassem, que estudassem. Como pode ser a mesma coisa, se a lei das cotas vai colocar mais estudantes negros na faculdade?

O Brasil possui um racismo velado que cisma em permanecer vivo, mesmo com todo o desenvolvimento econômico, social e político que o país vêm tendo nas últimas décadas. Quando eu morava no Rio, eu ia para Valença pelo menos duas vezes por mês para estar com a família. Na volta, o ônibus era frequentemente parado em blitz no meio da estrada, antes mesmo de chegar em Barra do Piraí. Nessas inspeções, os policiais – mesmo que fossem negros – sempre mandavam todos os passageiros negros saírem para ser revistados. Nunca vi um branco passar por isso.

Mas ainda existe gente que têm a petulância de dizer que não há racismo. Não só há preconceito quanto a quem não é branco, mas também contra as mulheres, que ainda não têm as mesmas chances que os homens, contra os estrangeiros (de países mais necessitados, é claro) e até mesmo contra quem não é do mesmo estado ou da mesma cidade.

Tudo isso só piora a discrepância que existe no sistema educacional brasileiro. A educação é universal e toda criança tem direito a uma vaga em uma escola pública. No entanto, o ensino peca por qualidade. Até o segundo grau, nenhuma família de posse usa o ensino público. Mas nas escolas particulares, os alunos são devidamente preparados para o vestibular dificílimo das universidades públicas, que são gratuitas. O resultado: crianças pobres recebem educação fraca e quando terminam o ensino básico ainda têm que pagar para estudar em faculdades que, muitos vezes, também estão bem aquém das expectativas em termos de qualidade.

Eu fiz curso pré-vestibular e me inscrevi para fazer as provas de quatro universidades federais. Não passei em nenhuma. Nem mesmo no cursinho pré-vestibular que fiz eu consegui aprender o que eles pedem nas provas. Zerei várias matérias, como química, física e matemática. Mas passei no vestibular da Universidade Estácio de Sá. Eles não tinham sequer as matérias História e Geografia, tinha algo muito parecido com Estudos Sociais. Uma das perguntas que me fizeram foi: “Qual é nome do filme estrelado por Fernanda Montenegro e passado em uma estação de trem do Rio de Janeiro?”

Ser a favor das cotas não quer dizer ser a favor do “nivelamento por baixo”, mas talvez de algum tipo de nivelamento que corrija essa anomalia. O próprio vestibular já devia estar caminhando para o seu fim, assim como o voto obrigatório, pois só aumentam
a desigualdade. O aluno devia conseguir vaga na faculdade através de todo o seu esforço feito durante o segundo grau, como se as suas boas notas na escola fossem parte de um currículo, e não fazendo uma nova prova que sequer é unificada pelo país afora e é injusta.

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