«Lula é um símbolo de uma sociedade civil dinâmica», afirmou Fernando Henrique Cardoso, na qualidade de sociólogo renomado, numa conferência sobre sociologia realizada no dia 08 de setembro em Lisboa.A análise sociológica de um ex-operário na presidência do Brasil foi feita na mesma semana em que o ex-presidente chamou Lula de «Rainha da Inglaterra», que não governa. Vale recordar que entre 2000 e 2002 o discurso do atual presidente brasileiro a respeito de Fernando Henrique era muito semelhante, criticando a corrupção num governo que de nada sabia.
O evento que iniciou as comemorações dos 20 anos da Associação Portuguesa de Sociologia (APS) reuniu o atual presidente português Jorge Sampaio e o ex-presidente Mário Soares e foi marcado pela deferência a Fernando Henrique, constantemente tratado como «Sr. Presidente» pelos demais palestrantes.
Mostrando-se um pouco desconfortável pelo tratamento no início, o ex-presidente conseguiu, no decorrer da conferência, dar um tom bem-humorado e diplomático ao seu discurso. Sem recorrer a leitura de apontamentos, o público que ocupou o auditório 2 da Fundação Calouste Gulbenkian tomou conhecimento das principais mudanças sociais ocorridas no Brasil desde os anos 30 do século passado.
Segundo o sociólogo, o momento marca o início de uma nova forma de avaliar o povo brasileiro, que até então era visto como desprovido de iniciativas de caráter social e descaracterizado. Desde o «nacional estatismo» de Getúlio Vargas, passando pelas ditaduras de 70 e 80 até o Movimento das Diretas Já, ocorreram transformações significativas na sociedade brasileira com o surgimento de uma nova classe média, definida por um movimento de ascensão social. A primeira classe média brasileira teria surgido da decadência de famílias abastadas.
Apesar de afirmar a existência no Brasil de uma sociedade civil capaz de se auto-organizar e com grande mobilidade social, Fernando Henrique reconheceu que a mesma é formada atualmente de uma grande massa urbana empobrecida. Destacou ainda que o analfabetismo que ainda persiste no país deve-se a cerca de dez por cento da população mais envelhecida, que não aprendeu a ler quando criança, já que o programa do governo «Todo Mundo na Escola», de alguns anos atrás, praticamente extirpou a iletracia nas camadas mais jovens.
Antes da intervenção de Fernando Henrique Cardoso, que esteve presente na criação da APS na qualidade de presidente da Associação Internacional de Sociologia (ISA), renomados sociólogos portugueses fizeram um balanço dos 30 anos da prática da sociologia em Portugal, iniciada após 1974, ano da queda da ditadura salazarista.
Destaque também para as palavras do presidente português Jorge Sampaio, que lançou uma espécie de desafio à APS, para a realização de um estudo aprofundado do impacto social dos dramáticos incêndios que ocorrem durante o verão português.
Culto de esteriótipos?
Fernando Henrique lançou também algumas farpas ao referir que os brasileiros possuem uma «cultura oral» e que não «sabem ler», justificando porque não leria seus apontamentos durante a conferência, como fizeram os outros palestrantes antes dele.
Ressaltando o novo papel do Estado nas relações sociais a partir do surgimento de uma sociedade civil ativa, o sociólogo também apelou para que esta ciência contribua para a reconstrução de uma arena pública que responda às necessidades de comprometimento político. Fernando Henrique citou o exemplo dos blogs, que apesar de trazerem à luz um jornalismo mais imparcial, muitos são auto-censurados e não se assumem, o que fere os princípios de uma sociedade que quer participar nas deliberações propostas pelos seus governantes.
Constatou ainda que a tendência mundial é que o Estado, antes considerado instrumento de coesão do povo, seja agora uma ponte entre os vários setores da sociedade, numa tentativa de se restabelecer as crenças e os valores da democracia.
No final, houve um breve espaço para que os jornalistas fizessem perguntas ao sociólogo, que apelou para valores de tolerância a respeito do grande número de imigrantes brasileiros que todos os anos chega a Portugal.
Assinalando a necessidade de mão de obra em diversos setores da economia portuguesa, Fernando Henrique apontou a criação de uma política de abrangência e integração à sociedade desses trabalhadores, a exemplo do que o próprio Brasil fez a partir de 1907, quando foi alvo do maior fluxo migratório e espontâneo do século passado. Na época, cerca de 2/3 da população operária era constituída por espanhóis e italianos.
O alerta foi justificado pelo mesmo momento histórico, que lançou milhares de negros recém-libertos e sem qualificação profissional na marginalidade.
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