A campanha eleitoral de 2005 em Portugal durou apenas duas semanas. Começou no dia 27 de setembro e terminou no dia sete de outubro, a dois dias das «eleições autárquicas», que decidiram os dirigentes dos próximos quatro anos dos Conselhos (Autarquias) e das Freguesias portuguesas (subdivisões dos concelhos).O Conselho de Trancoso, situado na região da Beira Interior de Portugal, foi o palco das duas maiores tragédias registradas nas eleições municipais deste ano, marcada pelo imprevisto e pelo extraordinário. Dois candidatos à Freguesias de Trancoso foram aparentemente assassinados, um no início da campanha e o outro perto do fim.
Miguel Madeira, candidato à Freguesia de Vila Franca das Naves, levou dois tiros de espingarda no dia 27 de setembro por um habitante local, devido a uma disputa por lugares de estacionamento num terreno. Já o candidato à Freguesia de Freches, Manuel Plácido, foi encontrado morto dentro do próprio carro, junto a uma pistola de calibre 6,35 mm, no dia seis de outubro.
Numa estranha coincidência, os dois candidatos pertenciam ao Partido Social Democrata (PSD), representado nos gráficos eleitorais pela cor laranja e que elegeu o maior número de candidatos nesta e na última eleição, realizada em 2001.
Em Portugal, o voto é facultativo. Numa campanha eleitoral atípica, os blogues foram o instrumento político da moda, fenômeno que se tornou comum a todos os partidos portugueses, permitindo vincular notícias mais favoráveis às listas de candidatos para melhor convencerem os eleitores. No endereço http://blogautarquicas.blogs.sapo.pt/, os leitores podiam encontrar um resumo do que de melhor era elaborado, desde campanhas em lugares exóticos como caixotes de lixo até os motes mais engraçados.
Como no Brasil, há a distribuição de brindes de campanhas políticas, como bonés, adesivos e canetas aos eleitores indecisos. Um dos gestos mais originais desta campanha fica para o candidato à Freguesia de Maximinos, do concelho de Braga, que distribuiu algo bem à portuguesa: chouriços, aqui conhecidos como «enchidos», para valorizar o produto nacional, (no caso, a carne do porco). O exemplo foi seguido por outra candidata à mesma freguesia, que completou o banquete distribuindo garrafas de vinho, cujo rótulo continha os dizeres de sua campanha.
O ex-presidente socialista Mário Soares, de 91 anos, que havia lançado a sua recandidatura à Presidência portuguesa, foi ainda acusado de violar a lei eleitoral ao pedir votos para João Soares, seu filho, candidato à autarquia de Sintra, no próprio dia da eleição, realizada no dia 9 de outubro.
Para fechar com chave de ouro estas polêmicas eleições, quatro candidatos de peso foram deixados de lado pelo seus partidos e tiveram de se candidatar de forma independente, porque estão sob processos judiciais. Valentim Loureiro, indiciado por 18 crimes, foi eleito para o concelho de Gondomar, enquanto Isaltino Morais conquistou a autarquia de Oeiras, mesmo sendo suspeito de corrupção passiva, evasão fiscal e lavagem de dinheiro.
Avelino Ferreira Torres concorria ao concelho de Amarante, mas não foi eleito. O candidato tem uma condenação a três anos de prisão por peculato e uma acusação mais recente de falência fraudulenta, apesar de ter governado o concelho de Marco da Canaveses pelo CDS-PP durante 23 anos.
A autora do lance mais espetacular destas eleições - digno de cena de novela - foi Fátima Felgueiras, a candidata independente para o concelho de Felgueiras. Nascida no Brasil e residente em Portugal desde os quatro anos de idade, Fátima foi eleita autarca de Felgueiras em 1997 e 2001. Acusada de 23 crimes, fugiu para o Brasil em maio de 2003.
Retornou a Portugal no dia 21 de Setembro, a tempo de relançar a sua candidatura ao concelho que abandonara há dois anos. Contra toda a lógica, Fátima Felgueiras venceu as eleições com mais de 50% dos votos.
O Partido Socialista (PS), do atual primeiro-ministro português, José Sócrates, manteve nestas eleições uma clara tendência a ser penalizado pelas medidas restritivas do Governo, lançadas para corrigir o déficit nacional. O PS elegeu cerca de 40 autarcas a menos do que PSD.
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